Juiz de Fora lidera ranking de mortes em linhas férreas no Brasil, aponta relatório do TCU
Trem da MRS, em Juiz de Fora Juliana Netto/g1 Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) levantou dados sobre a situação da malha ferroviária no país, e...
Trem da MRS, em Juiz de Fora
Juliana Netto/g1
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) levantou dados sobre a situação da malha ferroviária no país, e revelou que Juiz de Fora é a cidade que tem o maior número de mortes na linha férrea: foram 33 óbitos entre dezembro de 2020 e março de 2025, além de 29 feridos. Na segunda colocação do ranking aparece Curitiba (PR), com 30 mortes e 67 feridos.
A auditoria buscou examinar a situação atual das passagens de nível nas concessões ferroviárias federais e as providências adotadas pelos responsáveis para mitigar os eventuais riscos envolvidos.
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Em Juiz de Fora, a inspeção in loco identificou diversos entraves críticos à segurança e à gestão das passagens em nível. Tanto Juiz de Fora quando Curitiba foram escolhidas para serem visitadas, pois despontam em relação às demais, segundo o relatório.
Um dos pontos é a subutilização de passarelas. Segundo o documento, algumas não são utilizadas ou são subutilizadas pela população, muitas vezes por estarem localizadas próximas a passagens em nível que permanecem abertas, tornando o equipamento de segurança de utilidade questionável.
Em nota, a MRS Logística reforçou que a segurança ao longo da ferrovia é uma prioridade permanente e resultado de um esforço conjunto entre concessionária, poder público e população. Ainda segundo a nota, município segue com a previsão de receber novos investimentos, que contempla a construção de mais quatro novos viadutos. Confira a nota completa mais abaixo.
Já a Prefeitura de Juiz de Fora, em nota, comentou que a operação, a segurança e a manutenção da infraestrutura são responsabilidades da MRS. “Isso não afasta a atuação do Município, que mantém diálogo permanente com a concessionária, inclusive por meio de um grupo de trabalho voltado à construção conjunta de soluções que garantam a segurança da população, a eficiência e a qualidade da mobilidade urbana”. A nota completa também pode ser lida mais abaixo.
Jogo de empurra
A auditoria do TCU também identificou a indefinição de responsabilidades. Segundo o relatório, há um impasse entre a concessionária MRS Logística e a Prefeitura sobre quem deve cuidar da manutenção de estruturas como as calçadas de acesso às passagens de nível localizadas dentro da faixa de domínio ferroviário.
A conservação desses espaços é fundamental para garantir a segurança e estimular o uso correto das passagens pelos pedestres.
Outras situações verificadas na auditoria:
Falta de consulta popular: ausência de participação da comunidade na definição das soluções técnicas (como a localização de viadutos e passarelas), o que retira a legitimidade das obras e dificulta a aceitação do fechamento das passagens de risco;
Visão de que o problema é exclusivo da concessionária: Em entrevistas, representantes do município manifestaram o entendimento de que a segurança nas passagens é responsabilidade apenas da concessionária e do Governo Federal, alegando que a ferrovia não traz ganhos diretos à cidade e interrompe o fluxo urbano;
Inexpressividade de recursos e atrasos em obras federais: Obras previstas em programas federais (como o Prosefer) para adequação da linha férrea em Juiz de Fora apresentam execução orçamentária diminuta e longo transcurso de tempo sem conclusão definitiva.
Orientações para melhorar o cenário
O documento do TCU também apresenta recomendações e boas práticas para cidades com o perfil de Juiz de Fora, que incluem desde manutenção adequada quanto campanhas de conscientização. Confira:
Matriz de responsabilidades: definir detalhadamente as obrigações do município e da concessionária quanto à sinalização, limpeza e manutenção de equipamentos (lâmpadas, câmeras e calçadas) nas passagens de nível e passarelas
Participação popular obrigatória: O TCU recomenda que qualquer obra em desnível (viadutos ou passarelas) seja precedida de consultas públicas genuínas com a comunidade local para garantir que a solução técnica seja aceita e utilizada pela população
Precauções jurídicas para fechamento de passagens em nível: Adotar mecanismos administrativos que garantam o fechamento imediato e definitivo de passagens de nível (PNs) assim que uma obra de substituição (viaduto) for inaugurada, evitando a manutenção de riscos
Instalação de fiscalização fletrônica: Recomenda-se a instalação de radares e sistemas de videomonitoramento com inteligência artificiais em PNs críticas para coibir e multar condutores que desrespeitam o sinal vermelho ou a aproximação do trem
Considerar soluções de menor custo e maior aceitação social, como a automação de cancelas ou, em locais de vandalismo recorrente, o uso de operadores humanos em vez de equipamentos puramente automáticos
Acidentes têm interferência de terceiros
Os dados do TCU também apontam que mais de 70% dos acidentes ferroviários no país têm como causa a chamada “interferência de terceiros”, ou seja, comportamentos imprudentes de motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.
Causas dos acidentes ferroviários e % de acidentes
Alguns vídeos cedidos pela MRS ao g1 mostram flagrantes de imprudência . Uma das gravações mostra também um rapaz brincando com a aproximação da locomotiva, ao deitar-se sobre os trilhos bem no momento que o trem se aproxima. Veja abaixo.
Como pressa e distração contribuem para acidentes em linhas férreas em Juiz de Fora
Em relação a isso, a recomendação do TCU é que sejam realizadas campanhas locais de conscientização, além de contrapartidas urbanísticas (paisagismo, arte urbana/grafite e iluminação reforçada) para tornar viadutos e passarelas locais mais harmônicos e seguros para o convívio social.
Também há orientação para treinamento de gestores municipais de trânsito em planejamento urbano e segurança ferroviária para reduzir a dependência histórica de decisões do governo federal ou das concessionárias.
Segundo a MRS, em 100% dos atropelamentos e abalroamentos registrados na malha sob a concessão da empresa, existe um componente comportamental envolvido, como a pressa, a imprudência, a falta de atenção, uso de álcool e drogas, entre outros comportamentos inadequado.
Nota da MRS Logística
"A MRS Logística reforça que a segurança ao longo da ferrovia é uma prioridade permanente e resultado de um esforço conjunto entre concessionária, poder público e população.
Nos últimos anos, Juiz de Fora deixou de ocupar a primeira posição no ranking nacional de acidentes ferroviários, resultado de uma série de investimentos realizados em parceria com o poder público. Entre as iniciativas, destacam-se o convênio firmado entre a MRS, o DNIT e a Prefeitura, que viabilizou obras estruturantes, como o viaduto Engenheiro Renato José Abramo, a alça do viaduto Augusto Franco, além dos viadutos Roza Cabinda e Hélio Fadel. O projeto foi estruturado pela MRS, permitindo o acesso a recursos federais para a execução das obras.
O município segue com a previsão de receber novos investimentos, fruto da renovação da concessão da MRS, que, em alinhamento com a Prefeitura de Juiz de Fora, contempla a construção de mais quatro novos viadutos: Rui Barbosa, Teresa Cristina, Coronel Vidal e Bernardo Mascarenhas, além do prolongamento da Avenida dos Andradas, com a requalificação urbana e paisagística do seu entorno na região do Mariano Procópio, contribuindo para a melhoria da mobilidade urbana e o aumento da segurança e conforto na travessia dos pedestres. Todos esses investimentos contribuem indiretamente para a geração de mais de 1.200 empregos diretos na cidade.
Além disso, a empresa realiza diversas campanhas de conscientização, como blitze em passagens em nível com distribuição de panfletos educativos, uso de carros de som, comunicação em mídia social, visitas às escolas, reuniões com as comunidades, entre outras. Todas as ações são sempre voltadas para alertar e intensificar a atenção ao se aproximar das passagens em nível.
A MRS destaca que a segurança ferroviária é uma responsabilidade compartilhada. Em 100% dos atropelamentos e abalroamentos registrados na malha sob a concessão da empresa, existe um componente comportamental envolvido, como a pressa, a imprudência, a falta de atenção, uso de álcool e drogas, entre outros comportamentos inadequados. Infelizmente, uma minoria da população ainda insiste em se arriscar e, por vezes, causar acidentes.
Sempre importante: antes de cruzar a linha férrea, é fundamental sempre parar, olhar para os dois lados para verificar a aproximação do trem, escutar e respeitar a sinalização. Essas são atitudes seguras que salvam vida."
Nota da Prefeitura de Juiz de Fora
"A Prefeitura de Juiz de Fora informa que a operação, a segurança e a manutenção da infraestrutura ferroviária são responsabilidades da MRS Logística, conforme as obrigações estabelecidas no contrato de concessão federal. Isso não afasta a atuação do Município, que mantém diálogo permanente com a concessionária, inclusive por meio de um grupo de trabalho voltado à construção conjunta de soluções que garantam a segurança da população, a eficiência e a qualidade da mobilidade urbana.
A Prefeitura destaca que as intervenções na malha ferroviária e em suas áreas de influência exigem articulação entre os órgãos envolvidos, respeitadas as competências de cada instituição. Nesse sentido, o Município participa das discussões sobre melhorias nas travessias, acessibilidade e integração da ferrovia à cidade, buscando soluções que atendam às necessidades da população e reduzam os riscos de acidentes. Por fim, as obras no entorno das ferrovias, também de responsabilidade da MRS, integram as iniciativas para melhorar a mobilidade urbana e a segurança nos cruzamentos ferroviários do município, e o Executivo participa de um grupo de trabalho para diálogo acerca das intervenções."
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